No passado sábado, dia 17 de maio, marcou o muito aguardado regresso das nossas provas cegas. Nesta sessão, centrámo-nos nos vinhos elaborados segundo o método ancestral da vinificação em barro – uma prática que, apesar das suas raízes milenares, tem vindo a conhecer um notável renascimento. Este ressurgimento deve-se não só ao vigor crescente do movimento dos Vinhos de Talha no Alentejo, mas também à curiosidade que tem vindo a despertar entre produtores de várias regiões do país.
Com casa cheia, colocámos à prova (cega, naturalmente) um total de 17 vinhos, entre brancos e tintos. O painel de provadores era bastante heterogéneo, incluindo desde entusiastas iniciados até especialistas com certificações avançadas, como o WSET Nível 3.
Foram servidos vinhos de excelente qualidade, representando o que de melhor se faz em Portugal no que toca à vinificação em barro — seja em talhas tradicionais alentejanas ou em ânforas de inspiração internacional.





Nos vinhos brancos, houve um vencedor destacado e consensual: Mestre Daniel Branco 2023, do projeto XXVI Talhas. Um vinho de classe, com complexidade estonteante e uma prova de boca elegante, energética e tensa. Um verdadeiro exemplo da excelência que os vinhos de talha podem alcançar, vindo da atual “capital” deste movimento: Vila Alva.
O restante top 5 dos brancos mostrou grande diversidade de estilos:





Nos tintos, as preferências dos provadores dividiram-se mais. Houve uma clara distinção entre vinhos fortemente marcados pelo barro e outros em que a ânfora/talha surge como um elemento mais subtil de complexidade.



O grande vencedor foi o Pôpa Amphora 2019 da Quinta do Pôpa – um vinho duriense intenso, com fruta densa, notas minerais e terrosas, e uma boca ampla e poderosa que conquistou todos.
O top 5 dos tintos ficou assim:





Agradecemos a todos os produtores que enviaram amostras para a prova. Uns vinhos foram mais consensuais do que outros, mas mesmos nos vinhos que ficaram fora do Top 5, havia qualidade e diferentes abordagens, com vinhos para todos os gostos.
Não podemos também deixar de agradecer ao Joel Leite, que nos recebeu no seu espaço JL Vinhos com a habitual simpatia e profissionalismo. Foi um anfitrião exemplar, fazendo de tudo para que a prova decorresse muito bem. Temos a certeza de que esta foi apenas a primeira de muitas colaborações futuras.




Esta foi uma prova extremamente didática, que demonstrou a diversidade de estilos possível através da vinificação em talhas e ânforas. Fica a certeza de que este método ancestral está de regresso — não como curiosidade histórica, mas como uma via legítima e promissora para criar vinhos de enorme classe. Um merecido tributo a uma tradição milenar que, agora mais do que nunca, tem muito para oferecer ao presente e ao futuro do vinho português.

Aqui fala-se de tudo, desde que de vinho. 11 enófilos dedicados à mais nobre das líquidas causas...
