Dentro da Garrafa com Susana Martins – Muxagat.

Dentro da Garrafa com Susana Martins – Muxagat.

Olá Susana, bem-vinda à rubrica Dentro da Garrafa com:

“Embora eu seja a cara do projeto, é importante que as pessoas saibam quem está por trás do projeto Muxagat.”

Cegos por Provas (CpP): Susana, fala-nos um pouco sobre a Muxagat e o vosso projeto.

Susana Martins (SM): A Muxagat é um projeto de pequena dimensão, familiar, que nasceu numa garagem, numa pequena aldeia chamada Muxagata, no Douro superior. É um projeto com uma produção anual de 45000 garrafas, com 9 referências no mercado. Produzimos vinhos de uma forma mais tradicional e artesanal e de mínima intervenção, ou seja, os vinhos são trabalhados de forma mais artesanal, no caso dos brancos são prensados numa prensa vertical, onde cada prensa demora cerca de 3 a 4 horas e os tintos são vinificados em lagares de granito, onde é feita a tradicional pisa a pé. Na nossa casa, pouca maquinaria intervém na produção dos nossos néctares. Posteriormente passam para os respetivos depósitos, onde fermentam e estagiam sem adição de leveduras. Temos assim, vinhos de pouca extração e com fermentações e estágios mais prolongados. No fundo o nosso objetivo é mostrar as características originais de cada casta e do terroir. 
As nossas uvas vêm maioritariamente da nossa quinta, com cerca de 16 anos e também de algumas parcelas que compramos em Muxagata com mas idade. E aqui queremos manter esta ligação à terra que deu nome ao nosso projeto. Na enologia, temos o nosso consultor Luis Seabra e a nossa enóloga residente Ana Sofia Silva. Nas vinhas temos o meu marido, o Maike e o meu pai, Eduardo que trabalham diariamente as nossas uvas, na parte administrativa conto com o apoio da minha mãe, Dulcinia. Eu faço um bocadinho de tudo, desde adegueira até à parte comercial. Embora eu seja a cara do projeto, é importante que as pessoas saibam que está por trás do projeto Muxagat.

(CpP): Atualmente qual o tamanho da Quinta, exposição das vinhas e quais as suas castas?

(SM): A nossa quinta tem cerca de 80 hectares de vinha. Com exposições solares muito diferentes. Solo essencialmente de xisto, com alguma transição para granito.
Em termos de castas; castas brancas temos Riesling, Gouveio, Viosinho, Arinto e Rabigato. Nas castas tintas, temos: Touriga Nacional, Touriga Franca, Sousão, Tinta Roriz, Tinto cão, Tinta Francisca, Tinta amarela e Tinta barroca.

(CpP): Quais os vinhos que são produzidos na Quinta?

(SM): Nenhum 😛
A Quinta é uma coisa, a Muxagat é outra. Gosto de distanciar. 😉
Atualmente a Muxagat Produz 9 vinhos. 3 brancos, 1 rosé e 5 tintos
Muxagat Branco
Muxagat Riesling
Os Xistos Altos
Muxagat Rosé
Muxagat Tinta Barroca
Muxagat Tinta Francisca
Muxagat Vinhas Velhas
Muxagat Tinto
Cisne

“Mas um que me é muito especial, é o Muxagat Tinta Francisca.”

(CpP): Com qual deles te identificas mais? E porquê?

(SM): Essa é a velha pergunta, que tenho de responder com a resposta da praxe. 
Gosto de todos e é difícil escolher apenas um, os vinhos são para os momentos, e portanto escolheria conforme o momento. 
Mas um que me é muito especial, é o Muxagat Tinta Francisca. Foi o meu primeiro vinho tinto, desde que estou na Muxagat, aquele mais à seria! Que acabou por influenciar na escolha do nome da minha segunda filha. Mas também porque tem um perfil que vai de encontro com aquilo que eu gosto. Estruturado, mas não demasiado, com elegância, com frescura e bastante versátil. Para mim, é um vinho para todos os dias, e para todos os momentos. 😊

(CpP): Como foi a vossa vindima de 2019? O que devemos prever a nível de vinhos?

(SM): Está a ser um vindima lenta. No início com maturações irregulares, muito desfasadas umas das outras, comparando as castas. Iniciamos no dia 23 com a vindima de Gouveio, mas depois paramos durante muito tempo, porque o resto ainda não estava pronto. Entretanto algumas castas tintas, começaram a ficar prontas, e começamos com os tintos, muito antes de terminar os brancos. Em termos de rendimentos, este ano, baixamos os rendimentos, tivemos menos litragem. Mas relativamente à qualidade, parece-me ser um ano bom. Ainda é cedo, para delinear um perfil, ou um estilo, mas até agora, estou mais agradada com os tintos, com complexidade, cheios de aromas, cores vibrantes, parece-me que vamos ter tintos 2019 muito bons.

“Eu idealizo um Douro, acima de tudo, mais unido, com mais cooperativismo.”

(CpP): Como prevês o futuro do Douro? Achas que os “jovens enólogos e viticultores” estão a escrever uma nova história no Douro? O que gostavas que mudasse no Douro?

(SM): Eu idealizo um Douro, acima de tudo, mais unido, com mais cooperativismo. Em termos de vinhos, estamos no caminho certo. Mas em termos de união e lutar pelo Douro, ainda estamos muito longe daquilo que é necessário, a meu ver, para valorizar esta região. Uma das dificuldades que mais senti, quando entrei neste mundo, foi essa, a união. Há de facto um grupo de pessoas que tive o prazer de cruzar, que eu acho que poderão mudar o Douro, ou escrever uma nova história, o problema é que são produtores pequenos, com uma estrutura ainda muito pequena e que por enquanto ainda não têm “voz”. Mas eu acho que se está a escrever uma nova historia, seja nos vinhos, seja na postura, ou na valorização do Douro. Atualmente conseguimos ter vinhos muito mais equilibrados, mais frescos, menos alcoólicos, com maior qualidade, na minha opinião. Mas, no entanto, se formos provar vinhos de alguns anos atrás, também conseguimos perceber que essa qualidade, sempre esteve cá. Relativamente à região, e à postura dela no mercado, eu acho que já há alguma mudança, mas ainda muito longe daquilo que eu acho que deveria estar. Uma região valorizada cá dentro e lá fora, uma região com vinhos com preços ajustados à realidade daquilo que são os custos de produção, maior cooperativismo entre produtores, etc.
Mas tenho esperança, que o caminho faz-se caminhando…

(CpP): Se tivesses que escolher alguém para fazer um vinho para a Muxagat como convidado, quem seria? E porquê?

(SM): Esta pergunta é tramada. E não posso dizer que gostaria de fazer vinho só com um convidado, há um leque enorme e variado de pessoas com quem eu gostaria muito de fazer vinho. Tenho a sorte de já fazer com vinho uma das pessoas que para mim, é uma referência no Douro e foi no passado – Luis Seabra (risos)

(CpP): Qual o teu vinho preferido fora das portas da Muxagat?

(SM): Gosto de imensos. Mas aquele que me marcou mais, quando iniciei esta aventura e que só provei uma vez e nunca mais esqueci o paladar, foi o Charme da Niepoort.

(CpP): Se tivesses que escolher uma música para acompanhar um vinho Muxagat, qual seria?

(SM): Músicas há imensas… Aliás, quando me é permitido fazer as remontagens sossegada e sozinha, faço questão de colocar música para que os lagares possam “ouvir” 😊.
Mas os meus estilos preferidos são o Jazz, Blues e Bossa nova. Algum instrumental ou música erudita como o Ludovico Einaudi, também são opções.

“É no respeito que tu encontras a humildade e honestidade.”

(CpP): Qual o teu lema? 

(SM): Não é bem lema, é mais uma palavra, que coloco em todas as minhas ações e posturas. Que é RESPEITO. Seja na vida pessoal ou profissional, acho que respeito é a base de tudo. É no respeito que tu encontras a humildade e honestidade. Respeitarmo-nos a nós próprios e aos outros é saber viver e viver bem.

(CpP): O que não abdicas mesmo?

(SM): Na minha vida, não abdico da verdade, da honestidade e da minha humildade. Não sei o dia de amanhã, e poderá ser pior que o de hoje. Mas nunca irei esquecer de onde vim. Tenho sempre esta verdade presente na minha cabeça, não abdico disso. O que mais me preocupa no futuro é a memória, mais que as rugas (risos), é a memória. Se pudesse mandar nisso, não abdicava nunca das memórias, sejam elas boas ou más, são o nosso ensinamento, é o que nos faz saber viver.
Não abdico também, do tempo que passo com as minhas filhas. Vivo uma vida muito ausente, nesse sentido. Acredito que profissões bem piores e mais ausentes. Mas eu passo muito tempo fora e quem é produtor compreende bem o que digo. Perdem-se os dias do pai, os dias da mãe, aniversários, o primeiro dia em que começaram a caminhar sozinhos, o primeiro dia de escola. As festinhas na escola…. E já passei por muitas destas situações que me deixam muito triste. Lembro-me que estava nos EUA, quando assisti pela videoconferência a minha filha mais nova a andar sozinha pela primeira vez. E estas são talvez das mais ingratas que ninguém dá valor e não tem preço, não é refletido no preço dos vinhos… Mas sai da nossa alma. Por isso, quando tiver de cancelar alguma reunião, ou rejeitar alguma chamada, por causa delas, sim, farei!
Também não abdico de umas garrafinhas Muxagat na mala do carro 😀 

Obrigado Susana. Felicidades e muitas conquistas para o projecto Muxagat.

Miguel Silva

Acerca

cegosprovas

Os Cegos por Provas nasceram através da plataforma Facebook, apaixonados pelo vinho, o grupo desenvolve vários eventos vínicos a nível nacional.

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